Cerveja com whey protein e colágeno: será que estamos indo longe demais com a obsessão por proteína?

- A Ambev lança em setembro a Spaten Pro, primeira cerveja com proteína do grupo no mundo. Inicialmente, novidade estará disponível só no Rio e em São Paulo
- O lançamento reflete uma tendência maior apelidada de protein washing, quando produtos comuns são reformulados com proteína extra e vendidos a preços mais altos
Primeiro, começaram a surgir as barras de cereal com proteína extra, depois os iogurtes e os shakes prontos. Agora, o supermercado parece ter sido tomado pelos produtos aditivados de proteína e as redes sociais se encheram de receitas de brigadeiro, sorvete e todo tipo de sobremesa feita com whey protein. Recentemente, uma das Kardashian lançou lá fora uma linha de pipocas e chips com proteína e agora a Ambev resolveu entrar nesse mercado. A gigante das bebidas alcoólicas anunciou no fim de julho o lançamento da Spaten Pro: uma cerveja escura, sem álcool, sem açúcar, com menos de 100 calorias e com 10g de proteína, compostas por 75% de whey protein e 25% de colágeno. Lá fora, essa onda dos produtos enriquecidos com proteína já ganhou até nome: o protein washing.

A Spaten Pro vai ser lançada em setembro, inicialmente só no Rio de Janeiro e em São Paulo. Trata-se da primeira cerveja com proteína da AB InBev, controladora da Ambev, no mundo. O Brasil vai ser o mercado piloto do produto e, caso ele faça sucesso por aqui, a ideia é que seja replicado em outros países. A Ambev já vinha apostando nas cervejas sem álcool e recentemente lançou a Skol Zero Zero (sem álcool e sem açúcar). O Brasil é o segundo maior consumidor de cerveja sem álcool do mundo, atrás apenas da Alemanha.


Para chegar à fórmula final da Spaten Pro, a Ambev desenvolveu mais de 100 protótipos durante cinco anos em seu Centro de Inovação e Tecnologia, no Rio de Janeiro. O produto é mais um sinal de que o wellness está ganhando espaço em todos os setores da vida, inclusive, nos momentos de lazer. Mas faz sentido transformar a cerveja em uma espécie de suplemento?
A questão é que muitos desses produtos são ultraprocessados e contêm quantidades elevadas de sódio ou açúcar. Além disso, alimentos artificialmente enriquecidos com proteína podem fazer com que fontes naturais do nutriente percam espaço na alimentação. As dez gramas de proteína do novo lançamento da Ambev equivalem à mesma quantidade de proteína de dois ovos. A diferença é que alimentos naturais também contêm outros nutrientes, como vitaminas e minerais.
Ao venderem algo como uma fonte extra de proteína, as marcas reposicionam seu produto e aumentam significativamente seu preço. Essa é uma resposta clara à demanda cada vez maior por proteína, uma das grandes obsessões do mundo do wellness. Um estudo da McKinsey publicado em dezembro passado, por exemplo, mostrou que entre janeiro e outubro de 2025 as vendas de whey protein no Brasil cresceram 124%.
Claro que a proteína é um nutriente vital para o bom funcionamento do nosso organismo. Mas, ao menos no caso brasileiro, a maioria da população já consome a quantidade indicada no seu dia a dia, segundo dados da última Pesquisa de Orçamentos Familiares, feita pelo IBGE entre 2017 e 2018. A recomendação geral é a ingestão de 0,8g a 1,2g de proteína por quilo por dia. Mesmo entre a população brasileira com menor renda a insuficiência do nutriente não chega a atingir 3%. Antes de consumir produtos com proteína extra, portanto, vale considerar qual objetivo se pretende atingir e se essa suplementação é realmente necessária.