A mente e a música: qual gênero musical mais ativa nosso cérebro?

- Estudo mostra que o gênero que mais ativa o cérebro não é o clássico, é o reggaeton
- Para trabalhar ou estudar, porém, o silêncio ainda vence a playlist favorita
Ouvir música enquanto se exercita, trabalha, lê ou está no transporte público: hoje é muito raro encontrar alguém que faça essas atividades em total silêncio, a música virou companhia para o dia a dia de quase todo mundo. As relações entre a música e nosso cérebro são muitas e algumas ainda são um certo mistério para a neurociência, mas o que uma pesquisa espanhola descobriu recentemente pegou muita gente de surpresa. Um estudo liderado por profissionais do Hospital Universitário de Nuestra Señora de la Candelaria, em Tenerife, e retomado recentemente por estudiosos da Universidade de Burgos descobriu que o reggaeton (isso mesmo!) é o gênero musical que ativa mais partes do cérebro e isso seria explicado por suas melodias repetitivas.
Em entrevista ao jornal colombiano El Tiempo, a neurocientista Manuela del Caño Espinel explicou que uma das principais funções do cérebro é sua capacidade de prever ações, ou seja, de antecipar o que pode acontecer a seguir. Em seu podcast, o neurocientista americano Andrew Huberman reforçou precisamente esta relação entre música e cérebro ao lembrar que uma das partes do órgão que a música ativa é o córtex frontal, conhecido justamente por sua função preditiva. Ao ouvir uma melodia já conhecida ou repetitiva, esta parte do cérebro é mais intensamente ativada.
O senso comum pode atribuir uma maior atividade cerebral a gêneros considerados mais complexos, como o clássico. Mas o estudo feito a partir da análise de exames de ressonância magnética realizados enquanto as pessoas escutavam diferentes tipos de música apontou em outra direção. Por ser um gênero com melodias mais simples e repetitivas, o reggaeton (estilo musical latino-americano popularizado mundialmente por artistas como Bad Bunny, Karol G e Maluma) foi o que mais ativou partes do cérebro humano.
A música pode ativar diversos circuitos neurais em nosso cérebro. Ouvir música pode influenciar a forma como respiramos, nossas emoções e nosso corpo. Um estudo recente, por exemplo, mostrou que ouvir música pode impactar até o nosso sistema cardiovascular. Outros mostraram que bebês respondem melhor à música do que a qualquer outro estímulo sonoro e isso teria relação com a forma como ela nos estimula a mexer nosso corpo ao ativar certos circuitos específicos do cérebro que criam uma propensão à ação – a qualquer tipo de ação e não exatamente à dança.



Mas se engana quem pensa que existe comprovação científica entre o ato de ouvir música e o aumento de performance – seja física, seja cognitiva. No primeiro caso, Huberman explicou, os estudos são conflitantes: alguns dizem que há melhora, outros que não faz qualquer diferença ouvir ou não música enquanto se faz exercício físico e outros ainda afirmam que a música pode reduzir a performance física. Um dos motivos para resultados tão diversos seria a falta de unanimidade tanto entre as práticas quanto entre os gêneros analisados. Já em relação a atividades que exijam atividade intelectual e atenção mais intensas, o conselho é mais claro: melhor trabalhar em silêncio ou, no máximo, ouvindo músicas instrumentais. Ouvir suas canções favoritas pode te levar à distração. Está aí uma experiência que muitos de nós já vivemos, não?
Referências
Huberman, A.. “How to Use Music to Boost Motivation, Mood and Improve Learning”. Huberman Lab. Podcast, video, 1:44:25. 2024. https://www.youtube.com/watch?v=gveDhZW-rUk
Kulinski, J., Ofori K., E., Visotcky, A., et al. “Effects of music on the cardiovascular system”. Trends in Cardiovascular Medicine 32, 6 (2022): 390-398. https://doi.org/10.1016/j.tcm.2021.06.004.