A testosterona como promessa de performance: quando o hormônio vira símbolo de masculinidade

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A testosterona como promessa de performance: quando o hormônio vira símbolo de masculinidade
  • Tratamentos com testosterona ganham força entre homens sem diagnóstico clínico
  • Manipulação do hormônio está ligada a um imaginário específico de masculinidade
  • Médicos alertam para uso indiscriminado desse tipo de tratamento

Quando o empresário mineiro Edson Roque, de 35 anos, fala sobre a própria trajetória corporal, ele começa pela altura: 2,03 metros. Sempre foi muito alto e, por muito tempo, muito magro. A desproporção entre estatura e volume muscular foi o que o levou à academia. “Para quem é grande, tudo é mais complexo”, diz. Ganhar massa, para ele, nunca foi simples.

Edson treinava com uma personal trainer, mas os resultados pareciam limitados. O corpo não respondia na velocidade desejada. Foi nesse contexto que a testosterona entrou em cena. Sem diagnóstico médico de hipogonadismo (condição na qual os testículos não produzem quantidade suficiente de hormônio), Edson não conseguiu prescrição médica e decidiu fazer a reposição hormonal por conta própria. “O médico não quis me receitar porque não quis se responsabilizar. Fui pesquisar para ver dosagem, o que funcionaria no meu corpo”.

O resultado, segundo ele, veio rápido. Em dois anos, saiu de 103 para 140 quilos. “Nunca consegui passar de 110 quilos antes”, conta. Edson afirma não ter tido efeitos colaterais, como espinha. Para ele, a testosterona se tornou quase um atalho para recuperar vitalidade. “É uma grande tendência no mercado masculino. É quase uma fonte da juventude. A gente volta no tempo dez anos. Senti mais força e disposição, até mesmo mental”. Segundo ele, após cerca de um ano, interrompeu o uso porque já tinha chegado ao objetivo. “O corpo caiu um pouco, mas me sinto bem”.

Histórias como a de Edson ajudam a explicar uma transformação na forma como homens lidam com o envelhecimento, o corpo, a performance e a própria identidade masculina, um fenômeno que extrapola as academias e alcança o mundo corporativo, as redes sociais e a medicina.

Durante décadas, a testosterona foi associada a quadros clínicos específicos, sobretudo o hipogonadismo. O tratamento, nesses casos, sempre exigiu diagnóstico criterioso, exames laboratoriais e acompanhamento médico rigoroso. Nos últimos anos, no entanto, o hormônio passou a ocupar outro lugar no imaginário masculino. Hoje, a testosterona é frequentemente apresentada como resposta para fadiga, queda de produtividade, dificuldade de concentração, perda de libido, ganho de gordura abdominal, desânimo e até sensação de fracasso pessoal.

Esse deslocamento não ocorreu por acaso. Ele foi impulsionado por um ecossistema digital que associa masculinidade a desempenho contínuo. Podcasts, perfis de Instagram, vídeos no TikTok e fóruns online passaram a tratar níveis hormonais como indicadores de sucesso pessoal.

Durante décadas, a testosterona foi associada a quadros clínicos específicos. Seu uso indiscriminado foi impulsionado por um ecossistema digital de podcasts, perfis de Instagram, vídeos no TikTok e fóruns, que associa masculinidade a desempenho contínuo.

Nos Estados Unidos, a popularização do tema ganhou força com figuras públicas como o influente podcaster Joe Rogan, de 58 anos, que relata abertamente o uso de terapia de reposição hormonal como parte de sua rotina de saúde e performance desde os 40 anos. Políticos como Robert F. Kennedy Jr., de 72 anos, também afirmaram fazer uso do hormônio, ajudando a normalizar a prática fora do ambiente estritamente médico.

No início do ano, o governo americano publicou uma versão reformulada das Dietary Guidelines for Americans 2025–2030, as diretrizes alimentares federais que orientam políticas de nutrição e programas públicos de alimentação no país. O material inclui, pela primeira vez, uma seção dedicada à “manutenção de níveis saudáveis de testosterona em homens”. Nela, o documento sugere que dietas extremamente com baixo teor de gordura podem estar associadas a pequenas reduções nos níveis de testosterona e que uma alimentação equilibrada com gorduras consideradas saudáveis e proteínas de boa qualidade pode apoiar a saúde hormonal masculina, embora especialistas em nutrição apontem que as evidências científicas que embasam essa recomendação ainda sejam fracas ou inconclusivas.

Segundo uma pesquisa da IQVIA, empresa global de análise de dados em saúde, mais de 11 milhões de homens receberam prescrições de testosterona em 2024 nos Estados Unidos, um salto significativo em relação a 2019. O crescimento da demanda abriu espaço para um mercado altamente lucrativo. Clínicas de “saúde masculina”, “longevidade” e “anti-aging” se multiplicaram, oferecendo protocolos padronizados, consultas rápidas e promessas atraentes.

Um estudo publicado no Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism analisou 253 sites de clínicas de reposição hormonal. O resultado foi contundente: 86% continham pelo menos uma afirmação incompatível com diretrizes médicas internacionais. A pesquisa apontou que, em muitos casos, a testosterona era apresentada como solução quase universal, sem menção adequada aos riscos. Outro problema, segundo os autores, é que a disseminação dessas informações pode influenciar diretamente a procura por testosterona e moldar expectativas dos pacientes antes mesmo da consulta médica.

Segundo uma pesquisa da IQVIA, empresa global de análise de dados em saúde, mais de 11 milhões de homens receberam prescrições de testosterona em 2024 nos Estados Unidos, um salto significativo em relação a 2019.

Para o urologista Samir Ahmed, o fenômeno é evidente na prática clínica. Segundo ele, o problema não está apenas na demanda dos pacientes, mas também na oferta irresponsável. “Tenho visto, após relatos de colegas profissionais e dos próprios pacientes, um aumento significativo de prescrições indiscriminadas por profissionais não capacitados, vendendo um produto como se fosse uma receita de bolo, sem individualizar o caso e sem expor os riscos inerentes da reposição hormonal”.

Do ponto de vista fisiológico, há riscos para a fertilidade e cardiovasculares. “O uso excessivo de testosterona exógena gera uma oferta abundante hormonal na corrente sanguínea e, consequentemente, existe uma inibição da produção natural da testosterona pelo testículo. Esse bloqueio implica em queda dos hormônios importantes na fertilização do homem, como LH e FSH. O uso de longo prazo, de seis meses a um ano, pode acarretar atrofia do testículo e queda na produção de espermatozoides”, explica, lembrando ainda que a testosterona em excesso pode aumentar a viscosidade sanguínea, elevando os riscos de infarto agudo do miocárdio, AVCs isquêmicos e trombose.

Quando a reposição faz sentido

Apesar dos alertas, especialistas reforçam que a testosterona não deve ser demonizada. Ela é tratamento legítimo quando há indicação clínica clara. “A reposição hormonal está indicada em casos confirmados de hipogonadismo, com baixa produção de testosterona comprovada por duas dosagens consecutivas, respeitando o ciclo circadiano, preferencialmente pela manhã”, diz Ahmed.

O médico ressalta que, além dos exames, é necessária a presença de sintomas para a indicação de reposição: “Cansaço, alteração de humor, queda de libido, esquecimento, perda de massa óssea e perda de massa muscular são sinais que, associados a níveis baixos, podem justificar a reposição”.

Segundo ele, há ainda situações específicas, como traumas testiculares, retirada de testículo, torção testicular ou envelhecimento avançado, em que os benefícios superam os riscos.

Masculinidade, pressão social e medicalização

Pesquisadores em saúde pública e ciências sociais apontam que a popularização da testosterona faz parte de um processo mais amplo de medicalização da masculinidade, reforçando um modelo estreito e idealizado do que significa ser homem, enquanto marginaliza expressões diversas e não tradicionais de gênero.

Esse processo encontra eco direto em um ecossistema digital conhecido como machosfera, um conjunto de comunidades online, fóruns, influenciadores e criadores de conteúdo que discutem masculinidade a partir de uma perspectiva muitas vezes marcada por performance, hierarquia, força física, domínio e rejeição de modelos considerados “fracos” ou “feminilizados”.

Dentro desse ambiente, a testosterona deixa de ser apenas um hormônio e passa a funcionar como símbolo identitário. Níveis hormonais elevados são frequentemente associados a sucesso financeiro, liderança, autoridade, virilidade e poder sexual. Em contrapartida, cansaço, insegurança emocional, queda de libido ou perda de rendimento profissional são retratados como sinais de falha individual ou de um corpo “deficiente”.

Pesquisadores apontam que esse discurso cria uma narrativa simplificada e perigosa: a de que existe um “homem ideal” biologicamente mensurável, cujo valor pode ser traduzido em números de exames laboratoriais. Nesse contexto, a reposição hormonal passa a ser apresentada não como tratamento médico, mas como ferramenta de correção moral e social.

Um estudo publicado no jornal Social Science & Medicine analisou 46 postagens de grande alcance sobre testosterona e testes hormonais feitas por contas do TikTok e do Instagram, que juntas somam mais de 6,8 milhões de seguidores, para entender como masculinidade e saúde masculina estão sendo retratadas e monetizadas nas redes sociais. A autora principal da pesquisa, Emma Grundtvig Gram, pesquisadora em saúde pública da Universidade de Copenhague, afirma que influenciadores costumam enquadrar variações normais de energia, humor, libido e envelhecimento como sinais de doença. Segundo ela, isso faz com que muitos homens passem a se perceber como intrinsecamente deficientes ou dependentes de intervenção médica, criando um senso de urgência por soluções.

No Brasil, embora não haja um banco de dados público consolidado sobre o número de homens em uso de testosterona, entidades médicas vêm se posicionando sobre o tema. A Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) alerta que a reposição de testosterona só deve ser indicada em casos bem documentados de hipogonadismo e que o uso para fins estéticos, de performance física ou antienvelhecimento não tem respaldo científico. Em posicionamento oficial, a entidade ressalta que níveis hormonais considerados “baixos” dentro da normalidade não justificam tratamento.Já a Anvisa classifica a testosterona como medicamento de uso controlado, exigindo prescrição médica. A agência alerta que o uso sem indicação ou acompanhamento pode gerar efeitos adversos importantes, incluindo infertilidade, alterações cardiovasculares e distúrbios metabólicos.

Referências

Departamento de Agricultura dos Estados Unidos. The Scientific Foundation For the Dietary Guidelines for Americans 2025-2030. 2026. Disponível em: https://cdn.realfood.gov/Scientific%20Report_508.pdf

Grant, B., de Silva, N.L., Gumssani, M. et al. “Discordance Between Online Information and Male Hypogonadism Clinical Guidelines: A Global Multilingual Content Analysis”. The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, 111, 6, (2026): 1651–1663. https://doi.org/10.1210/clinem/dgaf689

Gram, E.M., Mintzes, B., Copp, T. et al. “Selling masculinity – A qualitative analysis of gender representations in social media content about ‘low T’”. Social Science & Medicine, 393 (2026): 2-11. 10.1016/j.socscimed.2025.118903

Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. “Posicionamento da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia sobre o uso de Esteroides Anabolizantes e similares para fins estéticos ou para ganho de desempenho esportivo” (nota oficial). 2022.