Como a dopamina pode alterar nossa percepção de tempo e levar à procrastinação?

- A dopamina não regula só o prazer, ela também funciona como um relógio interno do cérebro
- O detox de dopamina virou moda no Vale do Silício, mas falta comprovação científica dos seus efeitos
A dopamina é um neurotransmissor ligado a processos de prazer e motivação. Em um mundo hiperestimulado, como o que vivemos, muito se fala dessa substância química e como teríamos ficado “viciados” nela: um like, uma microdose de dopamina. Há alguns anos, antes mesmo da pandemia, executivos do Vale do Silício começaram a fazer detox de dopamina para melhorar o bem-estar e recuperar a concentração, o foco. O que a ciência tem apontado é que, além de estar ligada a processos de recompensa, a dopamina também tem papel crucial na nossa percepção de tempo.
Uma das hipóteses da relação entre tempo e dopamina, por exemplo, é a de que o neurotransmissor seria uma espécie de relógio interno. Estudos feitos em ratos mostraram que, ao receberem doses de dopamina, os animais responderam mais rápido a estímulos, como se seu relógio interno tivesse acelerado. Quando receberam um tipo de “bloqueador” de dopamina, o efeito foi o contrário: como se eles estivessem mais lentos. Em estudos feitos com ressonância magnética em humanos, o resultado foi parecido. Em pacientes com Parkinson, onde a confusão temporal é bastante comum, baixos índices de dopamina também são frequentes.
Acontece que, em um mundo com tanto estímulo, tela, interação, redes sociais, recebemos doses constantes de dopamina, o que faz com que percamos nosso foco e nossa concentração em atividades mais “chatas”, de trabalho ou do dia a dia. O equilíbrio entre motivação e prazer pelo prazer é alternado. É aí que entra a procrastinação: quando o cérebro está calibrado para estímulos rápidos e constantes, tarefas longas e sem recompensa imediata parecem excessivamente entediantes.



O neurocientista Andrew Huberman explica que a chave é manter um nível saudável de dopamina basal. Para isso, ele dá algumas dicas: ter o sono regularizado, incluir no dia a dia práticas de ioga nidra (um tipo de ioga que usa técnicas de relaxamento guiado) e prestar atenção ao que se come. Sim, alguns alimentos podem te ajudar a aumentar a reserva de dopamina, especialmente os ricos em tirosina (um aminoácido muito importante para o funcionamento cerebral, encontrado em carnes, laticínios, peixes e grãos como o feijão). Além disso, Huberman reforça a importância de se expor à luz solar o mais cedo possível por pelo menos 15 minutos por dia e de se movimentar regularmente, misturando diferentes tipos de exercícios pelo menos cinco vezes por semana.
Já o tal “detox de dopamina” mistura estratégias que podem ser mais radicais e nem sempre viáveis. Em uma versão mais soft, se resumiria a incluir pausas estratégicas ao longo do dia distante de estímulos visuais e sonoros, sem tela de celular, televisão ou rádio. Nos formatos mais radicais, que costumam agradar os executivos do Vale do Silício, podem incluir um dia ou mais sem celular e telas de modo geral e ainda combinar jejum alimentar. Os adeptos dizem que se sentem mais equilibrados e concentrados quando retomam suas rotinas habituais, mas não existe comprovação científica nem dos efeitos em si nem de sua durabilidade.
Referências
Fung, B.J., Sutlief, E., Shuler, M.G.H. “Dopamine and the interdependendy of time perception and reward”, National Library of Medicine. 10.1016/j.neubiorev.2021.02.030
Huberman, A. “Leverage Dopamine to Overcome Procrastination & Optimize Effort”. Huberman Lab. Podcast, video, 1:58:48. 2023.YouTubeLeverage Dopamine to Overcome Procrastination & Optimize Effort