O que acontece no cérebro quando meditamos?

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O que acontece no cérebro quando meditamos?
  • A meditação age no córtex pré-frontal e na amígdala, reduzindo o estresse e melhorando a atenção
  • Pesquisa mostra que 13 minutos diários por oito semanas são suficientes para sentir os efeitos

Problemas para dormir? Medite. Nervoso com os boletos do fim do mês? Medite. Problemas no relacionamento, com a família, no trabalho? Medite. Dificuldade para se concentrar por mais de cinco minutos sem dar uma espiada nas redes sociais? Medite, medite, medite. Nas últimas décadas, a prática milenar se espalhou como antídoto para todo tipo de problema mas o que realmente se sabe sobre seus efeitos no nosso corpo?

Quando pensamos em meditação, logo imaginamos uma pessoa sentada de pernas cruzadas e olhos fechados respirando calmamente sem se mexer. A prática, no entanto, é bem mais diversa que isso: pode ser feita deitada, de olhos abertos e até em movimento, além de às vezes incluir exercícios respiratórios mais intensos. Nos exercícios meditativos mais conhecidos, entretanto, somos mesmo convidados a fechar os olhos e ficar parados em uma posição específica. Essas duas simples ações já são o suficiente para alterar nossa percepção. De olhos fechados, interrompemos nosso maior canal de estímulo externo: a visão. E parados, somos obrigados a desacelerar. Assim, já é possível canalizar a percepção das nossas sensações para nosso corpo, para o que acontece dentro da gente.

O corpo humano recebe estímulos internos e externos o tempo inteiro e não somos capazes de perceber todos (ainda bem ou provavelmente enlouqueceríamos). Durante a meditação, focamos na respiração ou escaneamos mentalmente nosso corpo, dando atenção a cada parte dele, uma por vez, lentamente. O exercício atua no córtex pré-frontal (onde o cérebro processa o raciocínio), na amígdala (chamada de cérebro primitivo onde as sensações de alerta e medo são produzidas) e no hipocampo (que regula tanto nossas memórias de longo e curto prazo quanto nossas emoções).

É a interação entre estas três partes do cérebro que se intensifica quando estamos estressados ou ansiosos. Pesquisas mostram que a meditação aumenta o fluxo nas regiões do córtex pré-frontal e do hipocampo, enquanto diminui a ativação da amígdala. Ou seja, a prática ajudaria tanto na atenção e no que se chama memória do trabalho, quanto na diminuição dessa sensação de urgência causada pelo estresse e que muitas vezes leva as pessoas a tomarem decisões um pouco questionáveis ou, poderíamos dizer, impulsivas.

Durante uma briga de trânsito, por exemplo, ou quando, depois de um desentendimento, ficamos horas repassando o que deveríamos ter dito, fazendo uma eterna reprise mental do episódio, nosso corpo ativa o chamado eixo HPA responsável por liberar cortisol (o hormônio do estresse) e nos colocar em situação de alerta. Quando os níveis de cortisol permanecem altos no nosso organismo, nos sentimos cansados, irritados e, claro, perdemos o sono. A meditação é uma das práticas (assim como a ioga) que ajuda a equilibrar a liberação de cortisol ao trabalhar justamente nossa capacidade de atenção e de controle das nossas emoções.

Não se sabe exatamente quando os homens começaram a meditar, nem onde. Os primeiros registros escritos sobre meditação foram encontrados nos Vedas, livros sagrados do hinduísmo, datados de 1500 a.C. Ainda assim, a prática também é registrada entre judeus, cristãos e muçulmanos desde o início destas religiões. Além disso, também é possível identificar práticas meditativas em grupos indígenas. Afinal, a meditação entendida de forma mais ampla é um estado contemplativo que une calma e atenção (idealmente plena).

Mas será que basta dar aquela fechadinha de olhos e fazer um ciclo de três respirações contando quatro para inspirar e quatro para expirar para nos sentirmos mais perto do nirvana? Pesquisas mostram que, apesar de a meditação poder ter efeitos calmantes instantâneos, só alcançamos seus benefícios de forma mais significativa quando adotamos a prática de forma consistente. Uma pesquisa publicada no Behavioural Brain Research, em 2019, acompanhou um grupo de pessoas entre 18 e 45 anos que meditaram diariamente por apenas 13 minutos durante algumas semanas. O estudo chegou à conclusão de que depois de oito semanas todos começaram a melhorar seu humor, atenção, memória de trabalho, assim como diminuíram ansiedade e estresse. Ou seja, nada de achar que apenas algumas respirações depois de um dia estressante vai te ajudar a controlar melhor suas reações ou te fazer enxergar os problemas da vida cotidiana com o tamanho que eles de fato têm. Agora, se pensarmos bem, todo mundo tem 13 minutos dando sopa no dia. E com consistência quem sabe não conseguimos ter um pouco mais de calma, esse item tão escasso no mundo hoje?

Referências

Basso, C., McHale, A., Ende, V. et al. “Brief, daily meditation enhances attention, memory, mood, and emotional regulation in non-experienced meditators”. Behavioural Brain Research 356 (2019): 208-220. https://doi.org/10.1016/j.bbr.2018.08.023