Trail running: a modalidade de corrida que une natureza e alta performance

- Terrenos irregulares, matas e montanhas: o trail running oferece desafio e desconexão do caos urbano
- A corrida de trilha cresce no Brasil e chega ao Nordeste e ao Pará, expandindo o circuito além do eixo Sudeste
Marianna Oliveira tinha acabado de se separar e de voltar ao Rio de Janeiro quando decidiu entrar em um grupo de funcional na Praia do Leblon. A ideia era criar uma nova rotina na cidade: “Eu detesto academia, lugar fechado, ar condicionado, aquela música, por isso fui atrás de um esporte ao ar livre”, conta a gerente de marketing. Foi assim, meio por acaso, que Marianna conheceu pela primeira vez a corrida de trilha, ou o trail running. O grupo de funcional também organizava corridas semanais, muitas delas no Parque Dois Irmãos, no Leblon.
Diferente da corrida tradicional, as corridas de trilha acontecem em terrenos com muita oscilação de elevação e condições diversas: desde matas com pedras e raízes a ruas de paralelepípedo e alguns trechos de asfalto. Ou seja, além do contato muito mais próximo à natureza, a corrida de trilha acaba sendo muito mais desafiadora. Para Marianna, isso cria um ambiente de desconexão com o caos da cidade que permite que você se distraia pela beleza do caminho, respire um ar mais puro e relaxe a cabeça, ao mesmo tempo em que essas dificuldades parecem tornar o esporte mais colaborativo.
“Eu sinto que as pessoas são muito mais parceiras nas provas de corridas de trilha, elas se ajudam, se acompanham. Eu já ajudei pessoas que estavam com câimbra e fui ajudada também. Uma vez chovia tanto que meu tênis não tinha aderência ao chão, era muita lama. Um cara me puxou o caminho todo”, conta ela.



No caso de Paulo Leão, 41 anos, a relação com o trail running começou durante pandemia e a porta de entrada foi a natação no mar aberto. Assim que o confinamento começou a ser flexibilizado, Paulo sentiu necessidade de voltar a praticar esportes, mas ainda não podia voltar ao seu amado futebol nem à academia (espaço que, ele confessa, nunca foi muito f
ã). Ao exercício físico, somou-se a vontade de estar mais perto da natureza. Quando esbarrou com uma propaganda de uma assessoria de natação no Instagram não teve dúvidas e se matriculou – na época, Paulo não sabia nem nadar. O grupo também organizava corridas no asfalto e em trilhas e logo começou a praticas as duas modalidades. E, rapidamente, percebeu que se identificava mais com a segunda.
“Morando no Rio, você acaba sempre correndo com vistas maravilhosas, mesmo no asfalto. Mas ver a cidade de cima, correr no meio da floresta. De repente, você está escalando uma pedra, às vezes tem barro, lama, riachos, cruzamos com alguns animais, ouvimos o canto dos pássaros... Para mim, isso é impagável”, explica Paulo, “É uma sensação libertadora, estar ali no meio da natureza, sentindo que você faz parte daquilo tudo”.
A primeira prova de trail running de Paulo foi na XC Búzios, uma das mais tradicionais no Rio de Janeiro, em 2021. Desde então, ele vai quase todos os anos. Em setembro de 2025, ele participou da primeira ultramaratona, correndo 60 quilômetros em trilhas na Paraty Brazil by UTMB, outra prova bastante reconhecida. Agora, Paulo Leão se prepara para etapa de Chamonix, na França, onde vai repetir a marca dos 60 quilômetros – a prova ainda vai acontecer no dia do seu aniversário. “Correr em trilha sozinho, de maneira geral, não é aconselhável porque você pode se acidentar. A assessoria tem me ajudado desde a pensar a pisada até a dosar minha energia para as provas de longa distância, que é o que eu gosto. Para mim, é fundamental”, conta ele animado.
O crescimento do trail running no Brasil está refletido no próprio calendário de provas: cada vez maior e mais diverso. Em 2026, o World Trail Races (WTR) – um dos maiores organizadores de provas de corrida de trilha no país – chegou pela primeira vez no Nordeste, na Praia da Pipa (RN). Além disso, este ano o WTR desembarca pela segunda vez no Pará, ampliando o circuito para além do eixo Sudeste. Já a última edição da Paraty Brazil by UTMB, que reúne provas de sete a 108 quilômetros, registrou mais de 4 mil inscritos com pessoas de 39 países vindo até o Brasil disputar.
Apesar dos desafios enormes desse tipo de esporte, os adeptos relatam uma sensação de bem-estar que muitas vezes não encontram em outras modalidades. A médica Laura Machado, de 35 anos, se junta ao coro de Marianna e Paulo. Ela começou na corrida de trilha em 2024 e já participou de sua primeira ultramaratona.
“A corrida de trilha se distancia da vaidade, do pace e da competição do asfalto. Nas provas e nos treinos, tem mais interação, apoio e também pausa e calma para contemplar a natureza”, resume.
Nesse mesmo espírito, Marianna lembra que com frequência esquece quantos quilômetros faltam para acabar a trilha e encontra muitas pessoas que optam até por correr sem fone só para se sentirem ainda mais imersos na natureza: “Tem uma magia na corrida de trilha que não encontro no asfalto”.