Como as mudanças climáticas afetam sua comida

- Estudo holandês mostra que o excesso de CO2 faz plantas crescerem mais, mas absorverem menos minerais do solo
- O fenômeno agrava a "fome oculta", deficiência de micronutrientes que já afeta mais de 2 bilhões de pessoas
Secas, enchentes e queimadas. São muitas as formas que as mudanças climáticas têm afetado a produção de alimentos no mundo. O que um estudo recente realizado na Universidade de Leiden, na Holanda, mostrou, no entanto, é que um outro fator do aquecimento global tem afetado diretamente o valor nutricional dos grãos, leguminosas e verduras que consumimos: o aumento de dióxido de carbono (CO2) no ar. Segundo a pesquisa, que coletou análises ao longo dos últimos 20 anos, houve uma queda média de 3,2% nos níveis de nutrientes em colheitas como as do arroz e do grão de bico, incluindo micronutrientes importantes para nossa saúde, como o zinco e o ferro.
Uma parte da comunidade científica ainda considera a queda modesta, mas a perspectiva é que esse declínio de nutrientes só aumente. Hoje, mais de dois bilhões de pessoas sofrem de deficiência de micronutrientes, um fenômeno que ficou conhecido como “fome oculta”. Isto é, apesar de ingerirem uma quantidade adequada de alimentos, estas pessoas não consomem níveis suficientes de vitaminas A e C, ferro, zinco e selênio, entre outros. Minerais e vitaminas são essenciais para os processos bioquímicos do nosso corpo. O selênio, por exemplo, ajuda a regular os hormônios da tireoide, além de ter papel importante no sistema imunológico e na saúde reprodutiva. O zinco também é importante para o funcionamento do nosso sistema de imunidade. Já o ferro é o responsável por transportar oxigênio na nossa corrente sanguínea.

De acordo com o estudo da universidade holandesa, o aumento de CO2 no ar faz com que as plantas produzam mais carboidratos que, por sua vez, funcionam como combustível para seu crescimento. O resultado é que as plantas se tornam maiores, mas o crescimento não é acompanhado pelo aumento na absorção de minerais do solo. Assim, a concentração de nutrientes cai. Em países mais ricos, este problema pode ser contornado com suplementação ou ainda o aumento do consumo de carne. Mas, em regiões mais pobres, as populações dependem do consumo de alimentos mais baratos e a suplementação não é uma opção.
Outras pesquisas mostram como as mudanças climáticas alteram os minerais no solo, o que também dificultaria a absorção das plantas. De outro lado, o aumento das temperaturas também pode gerar uma maior concentração de arsênio na água, fazendo com que algumas plantações recebam mais desse metal tóxico. Diante deste cenário, alguns cientistas apontam para a necessidade de adaptação do sistema agrícola para pensar em estratégias de plantio mais resistentes. Para outros estudiosos, a saída seria criar medidas públicas para garantir que a população consuma uma vasta variedade de alimentos, de modo a garantir que este déficit seja suprido. Uma iniciativa como essa, diante de um problema global, no entanto, demandaria a colaboração entre diferentes governos – solução (e grande empecilho) para a imensa maioria dos problemas causados pela mudança climática.
Referências
Ter Haar, S. F., Van Bodegom, P. M., e Scherer, L. “CO2 Rise Directly Impairs Crop Nutritional Quality.” Global Change Biology 31, 11 (2025). https://doi.org/10.1111/gcb.70568.