De “viagem” à neurociência: cogumelos psicoativos avançam como aposta no tratamento da depressão e dependência química

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De “viagem” à neurociência: cogumelos psicoativos avançam como aposta no tratamento da depressão e dependência química
  • Cientistas apostam em potencial de “reorganização” cerebral de cogumelos em tratamentos de saúde mental
  • Estudo mostra que psilocibina enfraquece circuitos de ruminações negativas no cérebro
  • Psicoativo atuaria de forma semelhante à serotonina

O uso de cogumelos no tratamento de transtornos psiquiátricos e dependência química ainda pode soar como “viagem” para muita gente. Mas a ciência vem transformando o tema em objeto de pesquisas conduzidas por laboratórios de neurobiologia ao redor do mundo. Aos poucos, o estigma associado à contracultura das décadas de 1970 e 1980 dá lugar a estudos que investigam o potencial terapêutico de compostos naturais presentes em fungos psicoativos. As substâncias vêm sendo analisadas por pesquisadores como alternativas para casos em que tratamentos convencionais apresentam resultados limitados, especialmente em quadros de depressão refratária, ansiedade e estresse pós-traumático. A hipótese estudada por cientistas é que esses compostos possam promover uma espécie de “reorganização” de conexões cerebrais, abrindo novas possibilidades terapêuticas para pacientes resistentes às abordagens tradicionais.

A grande estrela dessa história é a psilocibina, um alcaloide indólico simples (alcaloides são substâncias orgânicas, que contêm nitrogênio em suas estruturas, produzidas por plantas, microrganismos e organismos marinhos, muitas vezes com atividade biológica importante no organismo humano), encontrado em fungos do gênero Psilocybe.

“A maioria dos estudos científicos administra a psilocibina na sua forma isolada aos pacientes ou cobaias. No entanto, não é a psilocibina que atua diretamente no sistema nervoso central. Antes de chegar ao cérebro, ela passa por uma transformação no próprio corpo e se converte em psilocina, que é a forma ativa da substância”, explica o professor Leopoldo C. Baratto, do Departamento de Produtos Naturais e Alimentos, da Faculdade de Farmácia da Universidade Federal do Rio de Janeiro e coordenador do projeto de divulgação científica PlantaCiência (@plantaciencia).

Segundo o pesquisador, é a psilocina que consegue alcançar o cérebro e atuar em áreas ligadas ao humor e às emoções. “Ela age de forma semelhante à serotonina, neurotransmissor associado à sensação de bem-estar, conectando-se a receptores específicos do cérebro e mudando a forma como percebemos as coisas”, afirma Baratto.

O que acontece a partir dessa conexão é o que os cientistas chamam de desincronização massiva da atividade cerebral. A comparação é simples: o cérebro é uma orquestra em que cada seção toca sua parte de forma coordenada e rígida. Sob o efeito da psilocina, essa coordenação tradicional se dissolve, permitindo que os instrumentos comecem a conversar entre eles de maneiras totalmente novas. Estudos publicados na revista Nature mostram que o impacto dessa substância na conectividade funcional do cérebro é três vezes maior do que o causado por estimulantes comuns como o metilfenidato. Nesse processo, o cérebro passa a operar em um estado de maior entropia — termo usado pela neurociência para descrever um aumento na comunicação entre diferentes áreas cerebrais e uma maior flexibilidade dos padrões mentais, onde as fronteiras entre as redes neurais que normalmente mantêm as pessoas "no trilho" se tornam temporariamente fluidas.

Segundo o pesquisador Leopoldo Baratto, a psilocina “age de forma semelhante à serotonina, neurotransmissor associado à sensação de bem-estar, conectando-se a receptores específicos do cérebro e mudando a forma como percebemos as coisas”

Um dos conceitos mais pesquisados, apontado pelo professor Baratto como uma das descobertas mais fascinantes, corroborado por pesquisa da Universidade de Cornell (EUA), é o papel da Rede de Modo Padrão, ou DMN na sigla em inglês. Essa rede é a responsável pela percepção de tempo, espaço e, crucialmente, pelo sentido de "eu" ou ego. Em pacientes que sofrem de depressão grave ou ansiedade crônica, essa DMN costuma estar hiperativa, o que leva ao que os médicos chamam de ruminação: aquele ciclo vicioso de pensamentos negativos e autocríticos dos quais a pessoa não consegue escapar.

“A psilocina atua ‘desligando’ temporariamente essa rede, permitindo uma maleabilidade cognitiva, um estado de hiperconectividade global. É como se o cérebro ganhasse uma janela de oportunidade para se reorganizar, criando novas sinapses e reconfigurando memórias traumáticas por meio de um processo de neuroplasticidade intensa”, explica Baratto.

Essa reorganização não é apenas teórica. Pesquisadores de Cornell utilizaram uma técnica inovadora — e um tanto inusitada — para mapear exatamente onde essas novas conexões se formam: o vírus da raiva. Por ser um microrganismo naturalmente projetado para viajar entre neurônios por meio das sinapses, uma variante modificada e fluorescente do vírus foi usada para sinalizar os caminhos percorridos pela psilocibina no cérebro de cobaias. O resultado foi surpreendente. A substância enfraqueceu os circuitos de retroalimentação no córtex frontal, que são justamente os trilhos da ruminação negativa, e ao mesmo tempo fortaleceu as conexões entre o córtex e as regiões subcorticais, que ligam nossas percepções sensoriais à ação direta. Basicamente, a psilocibina ajuda o indivíduo a sair do "labirinto do pensamento" e voltar para a "pista da ação".

No campo das dependências químicas, o cenário é igualmente promissor. Um estudo publicado na JAMA Network Open revelou que a psilocibina pode ser um divisor de águas no tratamento do vício em cocaína, uma condição que há décadas carece de medicamentos eficazes. Em um ensaio clínico rigoroso, quase 30% dos participantes que receberam uma única dose da substância, aliada à terapia, conseguiram manter a abstinência total por seis meses — um feito que ninguém no grupo que recebeu placebo alcançou.

Um estudo publicado na JAMA Network Open revelou que a psilocibina pode se um divisor de águas no campo das dependências químicas.

Outro campo que vem despertando interesse é o das chamadas microdosagens, prática em que pequenas quantidades de psilocibina são consumidas de forma periódica, sem provocar alucinações intensas. Defensores afirmam que o método poderia melhorar foco, criatividade e bem-estar emocional. Entretanto, os próprios pesquisadores pedem cautela. Embora existam muitos relatos positivos nas redes sociais e em fóruns online, os estudos científicos sobre microdose ainda apresentam resultados inconclusivos.

O psicólogo Bruno Ramos Gomes, doutor em Saúde Coletiva pela Unicamp, trabalha com psicodélicos há mais de 16 anos e destaca que a psilocibina não é um remédio de manutenção que você toma todos os dias. Ela atua como um catalisador dentro de um processo terapêutico, facilitando transformações que sustentam a mudança de comportamento a longo prazo. Segundo ele, os resultados de estudos clínicos com os cogumelos têm sido promissores.

“Há um efeito grande sobre a depressão, num tratamento muito mais curto e eficaz. Mas ainda é preciso a liberação da substância pela Anvisa para tratamento terapêutico. As pessoas até conseguem comprar de forma autônoma para uso social, porque os cogumelos são comercializados com os dizeres ‘não destinado a consumo humano’. Assim, entra numa zona cinzenta da legislação brasileira”, explica Gomes.

É navegando nessa zona cinzenta que a produtora de moda Maria Eduarda, 26 anos, usando uma camiseta com um cogumelo desenhado e a frase “I put the fun in fungus” (Eu pus minha diversão num fungo), consegue comprar cogumelos mastigáveis pela internet para se divertir à noite.

“O site já chegou a sair do ar algumas vezes, mas nunca fiquei sem cogumelos. Gosto da ‘onda’ que os mastigáveis provocam e meu consumo acaba sendo considerado como microdose. Mas amigas minhas já passaram muito mal, uma com dor de barriga, outra com frio extremo”, relembra ela.

Apesar da relativa facilidade em encontrar a substânciaa Justiça brasileira frequentemente interpreta a venda e a posse desses cogumelos para consumo como crime, e pacientes que necessitam do uso medicinal geralmente precisam lutar nos tribunais por salvo-condutos.

Se por um lado todo esse movimento reflete uma queda na estigmatização, por outro é preciso alertar para os sérios riscos do mercado sem fiscalização. Médicos alertam que o consumo sem procedência garantida pode levar a intoxicações graves (há espécies venenosas de cogumelos!), além de que há risco de contaminações com opioides sintéticos.

O professor Baratto também faz alertas sobre a saúde física. Embora a psilocibina seja considerada segura do ponto de vista de toxicidade letal, ela pode representar riscos cardiovasculares a longo prazo.

O professor Baratto também faz alertas sobre a saúde física. Embora a psilocibina seja considerada segura do ponto de vista de toxicidade letal, ela pode representar riscos cardiovasculares a longo prazo. A substância estimula o receptor serotoninérgico 5HT2B, presente nas válvulas do coração, o que pode causar fibrose cardíaca se usada de forma crônica e sem controle. Além disso, existe o risco de desencadear surtos psicóticos ou episódios de esquizofrenia em pessoas com predisposição genética, o que torna a triagem médica essencial. Por isso, o modelo que vem sendo adotado em países mais avançados nessa pauta é o da terapia assistida: o paciente recebe a dose em um ambiente controlado, sob monitoramento profissional por cerca de oito horas, garantindo segurança física e suporte psicológico durante a experiência.

Mesmo com o avanço das pesquisas, especialistas ressaltam que a psilocibina está longe de ser uma “cura milagrosa”. O interesse crescente da indústria farmacêutica e de startups de biotecnologia no mercado de psicodélicos também acendeu debates éticos sobre patenteamento, acesso e mercantilização de terapias baseadas em substâncias naturais usadas há séculos por povos indígenas e comunidades tradicionais em rituais espirituais e medicinais.

No Brasil, grupos de pesquisa em universidades públicas começam a ampliar investigações sobre o tema, embora ainda enfrentem entraves regulatórios e burocráticos para obtenção das substâncias e aprovação de protocolos clínicos. Para muitos cientistas, o desafio agora é equilibrar o entusiasmo em torno dos resultados iniciais com a necessidade de pesquisas mais amplas, capazes de avaliar efeitos de longo prazo, contraindicações e impactos em diferentes perfis de pacientes.

Enquanto isso, o debate sobre os cogumelos psicoativos segue dividindo opiniões entre ciência, justiça, mercado e saúde pública. O que há poucos anos era tratado apenas como tema marginal ou associado à cultura underground passou a ocupar espaço em congressos médicos, revistas científicas e centros de pesquisa de referência internacional. A “viagem”, ao que tudo indica, deixou de ser apenas recreativa para entrar definitivamente na rota da neurociência contemporânea.

Referências

Lyons, T., Spriggs, M., Kerkelä, L. et al. “Human brain changes after first psilocybin use”. Nat Commun 17, 3977 (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-71962-3

Jiang, Q., Shao, L., Yao, S. et al. “Psilocybin triggers an activity-dependent rewiring of large-scale cortical networks”. Cell (2025): 659-675.

Hendricks PS, Lappan SN, Shelton RC, et al. “Psilocybin in the Treatment of Cocaine Use Disorder: A Randomized Clinical Trial”. JAMA Network Open 9, 5 (2026).