Enhanced Games: competição libera doping mas termina sem recordes e sem provar seu ponto

- A Olimpíada dos Esteroides estreou em Las Vegas com promessas grandiosas mas resultados foram aquém do esperado
- Financiado por Peter Thiel e Donald Trump Jr., o Enhanced Games vai além do esporte e reflete um fenômeno cultural mais amplo
No último dia 24 de maio, estreou em Las Vegas a primeira edição do Enhanced Games, conhecido também como Olimpíada dos Esteroides. Nos jogos, 50 atletas competiram em categorias de atletismo, levantamento de peso, natação e strongman (uma modalidade de força extrema que inclui deslocamento de pesos enormes por longas distâncias). Mas com uma regra totalmente nova: a liberação do uso de doping e substâncias proibidas nos Jogos Olímpicos e competições organizadas por federações internacionais. Apesar das promessas grandiosas, a competição terminou com a quebra de um único recorde.
O Enhanced Games, portanto, vai contra um dos fundamentos mais consolidados no mundo do esporte: a política antidoping. O discurso é cheio de furos: segundo os organizadores, a proposta é “abraçar a ciência” e possibilitar que atletas se superem cada vez mais. Mas qual o limite do corpo humano e da ambição? Entre as substâncias que foram liberadas, estavam testosterona, hormônio do crescimento, esteroides anabolizantes e estimulantes como Adderall. Além disso, os atletas puderam usar vestimentas proibidas nas demais competições, como roupas de natação banidas do esporte depois de uma discussão sobre os limites entre equipamento e a própria capacidade do atleta.
Segundo a organização do Enhanced Games, os atletas tiveram acompanhamento clínico ao longo do evento e vários chegaram a ser supervisionados por cerca de três meses em um hotel em Abu Dhabi, passando por exames médicos constantes. A ideia é, ainda, que exista acompanhamento de longo prazo após os jogos.

De outro lado, a organização ainda oferecia premiações milionárias para os atletas que quebrassem recordes mundiais e olímpicos. Mas, se a expectativa era mostrar que os atletas “turbinados” teriam força, velocidade e resistência muito acima dos que disputam as competições sem doping, a organização vai precisar repensar seu marketing. Não apenas um único recorde foi quebrado, como vários atletas optaram por não usar qualquer tipo de substância proibida e muitos deles subiram ao pódio. Foram os casos dos nadadores Fred Kerley (que venceu nos 100 metros rasos), Tristan Evelyn (vencedora nos 100 metros feminino) e de Hunter Armstrong (ouro nos 50 metros de costas).
O grupo de patrocinadores do evento também parece indicar que o objetivo é mais do que testar os limites ou mostrar que o antidoping é um “mito”, já que desde as primeiras competições esportivas algum tipo de estimulante teria sido utilizado pelos atletas (como narra um dos vídeos de divulgação dos Enhanced Games). Estão por trás do evento, por exemplo, o fundo de investimentos de Donald Trump Jr. (filho do presidente americano) e Peter Thiel (empresário bilionário de extrema-direita obcecado pelo tema da longevidade). Além disso, influenciadores, figuras públicas e atletas ligados a setores mais conservadores da política americana também fizeram propaganda para o evento, como Joe Rogan e Bryan Johnson. De alguma forma, a Olímpiada dos Esteroides parece estar conectada a um fenômeno cultural maior, o mesmo que está por trás da corrida por testosterona, por exemplo.