Kava, a planta tradicional das ilhas do Pacífico que ganhou o mundo

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Kava, a planta tradicional das ilhas do Pacífico que ganhou o mundo
  • A kava é uma planta com efeitos relaxantes parecidos com os do álcool, mas a OMS alerta para variações entre tipos e formas de preparo 
  • Nos países de origem, a planta é símbolo de conexão comunitária

Aqui no Brasil, a kava não é tão conhecida. Mas lá fora essa planta, original das ilhas do sul do Pacífico e tradicionalmente tomada como chá em rituais de comunidades da região, começou a ganhar o mundo antes mesmo da pandemia. Nos Estados Unidos e na Austrália, foram inaugurados até kava bars. Tudo isso porque a planta tem efeitos relaxantes parecidos com o do álcool, mas (se consumida moderadamente, claro) com menos danos colaterais para nosso organismo – menos ressaca, poderíamos dizer. Além disso, ela é vendida em cápsulas ou em óleo porque também ajudaria a controlar a ansiedade. É sob esta forma que é possível encontrá-la em alguns sites brasileiros.

Preparação de uma cerimônia com kava, em Samoa, no início do século passado.

Mas quais os efeitos comprovados dessa planta? A kava é feita a partir de uma raíz e contém uma substância chamada kavalactonas, que possui propriedades psicoativas. Segundo uma reportagem do Guardian, a planta seria original do Vanuatu e depois teria se espalhado por todo Pacífico.

Foi, inclusive, nesta pequena ilha da Oceânia que surgiram os primeiros kava bars, levando a bebida de sabor apimentado para ambientes mais sociais e festivos. No início de 2020, surgiu o primeiro laboratório de cultivo de kava em Fiji, cujo objetivo era vender desde sachês da erva até medicação contra ansiedade.

Até hoje, no entanto, poucos estudos comprovam sua eficácia científica e pouco se sabe sobre o impacto do consumo da planta a longo prazo. Em muitos países ocidentais, por exemplo, a comercialização da kava é proibida porque a substância estaria ligada a doenças hepáticas, ainda que os estudos sugiram que isto só acontece quando a erva é combinada com o consumo de álcool e outras drogas.

Bares de Kava ganharam popularidade nos EUA e na Europa. Outras formas de administração, como cápsulas, já podem ser encontradas no Brasil.

Um relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) reuniu todas as informações que existem hoje sobre a kava e também é cauteloso em ligar sua ingestão a doenças mais graves. Segundo a OMS, existe uma variação muito grande entre os diferentes tipos de kava e os efeitos da bebida também mudam de acordo com a parte da raíz utilizada em seu preparo, o que dificulta as análises clínicas.

No entanto, o que foi possível constatar é que seu uso moderado (como o praticado nas cerimônias tradicionais do Pacífico) não causa danos graves à saúde. Se consumida em doses maiores, a kava pode levar a irritação de pele, enjoo, perda de peso e alteração de apetite.

Foi algo parecido que aconteceu com o ex-vice-premiê da Austrália, em 2022, durante uma série de visitas oficiais às ilhas do Pacífico. Depois de tomar algumas doses de kava em Vanuatu, Michael McCormack chegou à Micronésia, onde participou de uma cerimônia com uma bebida feita da mesma planta e tomou-a de uma vez só – como se faz tradicionalmente em Vanuatu. Dessa vez, entretanto, a bebida era mais concentrada e o ex-vice-premiê precisou ser hospitalizado depois de se sentir mal.

Tais efeitos, no entanto, são interrompidos poucas horas depois da ingestão da kava, aponta a OMS.

De cerimônias seculares de povos do pacífico a nova queridinha do mercado dos nootrópicos.

Apesar do crescimento dos kava bars e do uso fitoterápico da erva, o consumo da kava em cerimônias tradicionais pouco tem a ver com seus efeitos relaxantes ou sua capacidade de alterar o estado de seus consumidores. Ao contrário, a kava é compartilhada em grupos sentados em círculos no chão e servida em cumbucas de madeira produzidas localmente. Ou seja, é muito mais sobre a partilha da bebida com o grupo, a promoção da conexão na comunidade do que chegar a uma sensação de embriaguez ou mesmo tratar de situações de angústia e estresse.

Referências

Organização Mundial da Saúde. Kava: a review of the safety of traditional and recreational beverage consumption (relatório técnico). 2016.