Magnésio: o novo “calmante” da geração ansiosa?

- O boom do magnésio reflete uma sociedade cansada e ansiosa em busca de soluções rápidas, diz nutricionista
- A suplementação pode ajudar em casos específicos, mas precisa ser individualizada e indicada por profissional
Até pouco tempo atrás, o magnésio era um mineral relativamente discreto fora dos consultórios médicos e das aulas de bioquímica. Associado principalmente à saúde óssea, à função muscular e ao metabolismo energético, raramente figurava no centro das conversas sobre bem-estar. Hoje, o cenário é outro. O magnésio se tornou um dos protagonistas da cultura contemporânea da saúde, impulsionado por um boom de posts nas redes sociais e pela crescente demanda de uma população cada vez mais cansada, ansiosa e privada de sono.
Nesse contexto, suplementos nutricionais passaram a ocupar um espaço simbólico importante: o de soluções rápidas, acessíveis e aparentemente seguras para restaurar o equilíbrio perdido. O magnésio, em particular, ganhou popularidade por estar associado a funções neuromusculares, à transmissão nervosa e à regulação do sistema nervoso central. Segundo a consultoria Custom Markets Insights, o mercado global de vitaminas e suplementos de magnésio deve alcançar US$ 8,94 bilhões até 2034, refletindo a forte expansão do setor. Embora os suplementos liderem esse crescimento, o magnésio também começa a aparecer em novas categorias de consumo, como produtos para cuidados com a pele, cabelos e até maquiagem.
Glicinato, treonato, citrato, malato… As diferentes versões do suplemento circulam como promessas de alívio para ansiedade, insônia, dificuldade de concentração, irritabilidade e fadiga mental. Nas redes sociais, o mineral aparece quase como um regulador químico do sistema nervoso, uma tentativa de “acalmar” corpos e mentes submetidos a uma rotina de hiperconectividade, excesso de estímulos e estresse crônico.

Esse conjunto de fatores explica por que o magnésio passou a ser chamado de o “mineral do momento”. A tendência tem sido amplamente impulsionada por plataformas digitais: somente no TikTok, há centenas de milhares de vídeos exaltando os efeitos positivos do mineral. A “propaganda” conta com a ajuda de celebridades como a atriz Gwyneth Paltrow, a cantora Taylor Swift e a apresentadora Davina McCall. Atualmente, as hashtags #magnésio e #magnesio reúnem mais de 725 mil publicações no Instagram, com usuários relatando benefícios percebidos e experiências pessoais com a suplementação do mineral.
Para a nutricionista Sabrina Kneipp, se por um lado esse boom do magnésio revela uma sociedade com hábitos de vidas inadequados, como o estresse crônico, a privação do sono e a alimentação desequilibrada; por outro, o interesse crescente também aponta para algo positivo: uma maior atenção à saúde preventiva e ao autocuidado. O problema está na forma como esse interesse é mediado: “Frequentemente esse assunto é mediado por tendências das redes sociais e estratégias de marketing que simplificam excessivamente questões complexas da nutrição e da saúde”.
Nas redes sociais, o magnésio deixou de ser apenas um nutriente para se tornar um símbolo. Ele aparece associado a ideias de autocontrole emocional, foco mental, produtividade e até espiritualidade. Influenciadores falam sobre “desligar a mente” antes de dormir, “acalmar o sistema nervoso” e “otimizar o cérebro”.



Esse discurso dialoga diretamente com uma geração marcada pelo burnout e pela fadiga digital. Em vez de mudanças estruturais, como dormir mais, reduzir o uso de telas, melhorar a alimentação e repensar jornadas de trabalho, a solução muitas vezes vem em cápsulas. “Hoje o magnésio virou quase um símbolo de busca de mais energia, menos ansiedade, melhorar o sono, quando na verdade a suplementação precisa ser individualizada e não encarada como uma solução para tudo”, afirma Sabrina.
Do ponto de vista científico, o magnésio é um mineral essencial envolvido em mais de 300 reações bioquímicas no organismo. Ele participa da produção de energia, da contração muscular, da condução nervosa, da síntese de proteínas e da regulação da pressão arterial.
De acordo com o National Institutes of Health (NIH), muitos norte-americanos consomem menos magnésio do que o recomendado. Dados de pesquisas indicam que a ingestão média de magnésio proveniente apenas dos alimentos é maior entre pessoas que utilizam suplementos alimentares com o mineral do que entre aquelas que não suplementam. Apesar disso, não há dados atuais consolidados sobre o status de magnésio da população dos Estados Unidos. O mineral não é avaliado rotineiramente em pesquisas nacionais de saúde, nem em hospitais ou clínicas, o que dificulta um diagnóstico preciso da real prevalência de deficiência.
Os números no Brasil também não são conhecidos. Mas a prática clínica mostra que a população realmente apresenta uma baixa ingestão de magnésio, segundo Sabrina, principalmente pelo consumo excessivo de alimentos ultraprocessados e pela redução do consumo de vegetais, sementes e leguminosas.
O magnésio está naturalmente presente em alimentos como folhas verdes escuras, sementes, castanhas, leguminosas, grãos integrais e cacau. A substituição desses alimentos por produtos industrializados, pobres em micronutrientes, ajuda a explicar a ingestão insuficiente. Mas isso não significa que todos precisem suplementar. “Existe uma supervalorização comercial do suplemento, sim. Muitas vezes os meus pacientes chegam no consultório e estão suplementando magnésio que compraram na farmácia sem indicação nutricional e sem um exame para saber se têm alguma deficiência”, afirma Sabrina.


Outro fator que alimenta o boom e a desinformação é a diversidade de formas disponíveis no mercado. Cada uma vem acompanhada de promessas específicas, muitas vezes amplificadas por estratégias de marketing. Sabrina explica que as diferenças existem, mas são frequentemente exageradas. “Existe uma diferença principalmente na forma como cada um é absorvido e como atua no organismo. O glicinato costuma ser mais associado ao relaxamento e ao sono. O treonato ficou conhecido pelo possível benefício cognitivo porque ele tem a capacidade de atravessar a barreira hematoencefálica. O citrato tem uma boa absorção, mas pode soltar o intestino, então ele é mais usado para quem tem prisão de ventre. E o de malato é muito relacionado à energia, à disposição”.
Apesar disso, ela faz um alerta importante: “É importante entender que todos eles são magnésio e que cada tipo tem algumas diferenças, mas não são promessas milagrosas, porque muitas vezes as diferenças são mais sutis do que o marketing faz parecer”, afirma, lembrando que embora o magnésio possa auxiliar em casos específicos, ele não corrige, sozinho, os efeitos de uma rotina desregulada.
Para Sabrina, o caminho passa pelo acompanhamento profissional. “A suplementação precisa ser individualizada e não encarada como uma solução para tudo. Precisa haver um olhar de um profissional de saúde.”
Referências
Dorge, R. Global Magnesium Supplements Market Size Likely to Grow at a CAGR of 7.43% By 2034 (relatório). 2025.